O frete rodoviário recuou em julho, acompanhando a queda do diesel e trazendo um alívio pontual para embarcadores e transportadoras. O movimento ajuda a reduzir custos no curto prazo, mas o mercado segue atento à sensibilidade do piso mínimo e da operação ao combustível.
O frete rodoviário brasileiro recuou 2,7% em julho, fechando em cerca de R$ 0,403 por tonelada/km, aliviando a pressão sobre o caixa de transportadoras e embarcadores em plena safra prolongada — um movimento diretamente ligado à queda recente do diesel e à atualização dos coeficientes do piso mínimo da ANTT, que continuam indexando o custo do frete ao combustível de forma quase automática.[4][9]
Diesel em queda: por que o frete recuou em julho
O dado que chamou atenção em julho foi a redução média de 2,7% do frete rodoviário, com o indicador nacional recuando para cerca de R$ 0,403 por tonelada/km, segundo levantamento divulgado pela imprensa especializada em logística e transporte.[4] Em paralelo, outro monitoramento apontou queda de aproximadamente 0,46% no frete por quilômetro rodado, reforçando a tendência de ajuste fino nos contratos em função do combustível.[9]
Na prática, o que enxuga o custo é a combinação de dois vetores: a queda recente do diesel nas bombas e o mecanismo de atualização do piso mínimo, que segue ancorado no preço do combustível. A nova Lei nº 15.485/2026 consolidou que variações superiores a 5% no diesel acionam uma atualização extraordinária da tabela de frete, encurtando o tempo entre o movimento da bomba e o reajuste oficial dos coeficientes.[7]
Mesmo não sendo o único componente do custo operacional, o diesel ainda responde facilmente por 30% a 40% da estrutura de custo de um caminhão em operação de longa distância, de acordo com levantamentos recorrentes da CNT e da própria ANTT. Em cenários de safra volumosa — com Conab projetando produções de grãos superiores a 300 milhões de toneladas em ciclos recentes — qualquer oscilação de alguns centavos no litro se traduz em milhões de reais a mais (ou a menos) na conta de frete ao longo do ano.
2,7%
Queda média do frete em julho no país[4]
R$ 0,403
Preço médio por tonelada/km rodado em julho[4]
Para embarcadores, o recuo de 2,7% pode parecer marginal à primeira vista, mas, em rotas de alta intensidade — como escoamento de grãos do Centro-Oeste para portos do Sudeste e Sul, ou transporte de combustíveis e fertilizantes — essa diferença pode significar dezenas de milhões de reais em economia anual quando somada à renegociação de contratos, otimização de backhaul e consolidação de cargas.
Piso mínimo em revisão: o que a ANTT está fazendo
No meio dessa queda de frete, a ANTT abriu, em 17 de agosto, uma tomada de subsídios para revisar a metodologia do piso mínimo do frete — sem mexer nos valores por enquanto, mas mirando uma recalibração estrutural da tabela.[1][6]
A pesquisa aberta pela agência busca dados detalhados de custos operacionais (combustível, manutenção, pneus, depreciação, remuneração do motorista, pedágio e despesas administrativas) para atualizar coeficientes que, na prática, definem o piso de cada tipo de operação: carga geral, granel sólido, granel líquido, frigorificada, perigosa e conteinerizada.[3]
Embora a etapa atual seja consultiva, o efeito prático em médio prazo é direto: uma metodologia mais fina pode aproximar o piso dos custos reais de operação, reduzindo distorções entre regiões e tipos de carga. Para transportadoras e embarcadores, isso significa:
- menos margem para acordos muito abaixo do custo real, que aumentam risco de inadimplência e quebra de prestadores;
- mais previsibilidade de repasse de diesel, com parâmetros de cálculo mais transparentes;
- maior pressão regulatória sobre players que operam fora da tabela, principalmente em contratos intermediados.
"A ANTT não está apenas recalculando números; está redefinindo o ponto de equilíbrio entre remuneração do transporte e competitividade do frete no Brasil."
— Análise da redação com base na tomada de subsídios da ANTT
Novo marco de fiscalização: CIOT como peça central
Enquanto o diesel puxa o frete para baixo, a fiscalização caminha na direção oposta: mais controle, mais dados e menos espaço para informalidade. A Lei nº 15.485/2026 consolidou o CIOT (Código Identificador da Operação de Transporte) como instrumento central de monitoramento do piso mínimo, prevendo multas mais pesadas para embarcadores e intermediadores que pagarem abaixo da tabela.[2][7]
Além de consolidar o CIOT, a lei reforça a atualização extraordinária da tabela quando o diesel oscilar mais de 5%, encurtando o delay entre o posto e o contrato. Isso faz com que a queda recente do diesel seja repassada com mais velocidade — como vimos em julho —, mas também acelera o repasse em cenários de alta, travando o frete em patamares mais elevados em menos tempo.[7]
Para operações com grande volume de fretes spot — como agronegócio, construção civil e varejo de alta rotação — o CIOT passa a ser um indicador de compliance tão relevante quanto a própria nota fiscal. Quem não ajustar sistemas, ERPs e TMS para emitir e controlar CIOT em escala corre o risco de ver a economia de alguns centavos no frete virar autuações e passivos regulatórios significativos.
Coefficients atualizados: frete mais sensível ao diesel
Reportagens recentes do setor indicam que os coeficientes do piso mínimo foram atualizados com base no IPCA e no novo preço de referência do diesel S10, reforçando a indexação direta do frete ao combustível.[9] Em termos práticos, a curva de frete fica mais “grudada” ao movimento do diesel, com menor peso relativo de outros componentes no curto prazo.
Isso explica por que, mesmo com inflação de serviços pressionada e aumento de custos de manutenção (pneus, peças, mão de obra), o frete conseguiu recuar em julho: o peso do diesel na fórmula é suficientemente alto para compensar outros itens, principalmente em operações de longa distância, que dominam o transporte de grãos, combustíveis e produtos industriais pesados no país.
5%
Variação gatilho do diesel para atualização extraordinária da tabela[7]
30–40%
Participação típica do combustível no custo do transporte de longa distância (estimativas CNT/ANTT)
Pedágios da Rio–SP: reajuste controlado, efeito limitado
No eixo mais carregado do país, a ANTT aprovou o reajuste dos pedágios da Rio–SP, válido a partir de 1º de setembro — mas com um detalhe importante: o impacto informado ficou cerca de 70% abaixo da inflação do período considerado.[15]
Isso limita o efeito de alta de pedágio no custo logístico total, especialmente para operações que rodam com alta taxa de ocupação e bom índice de retorno carregado. Num cenário em que o diesel cede, um reajuste moderado de pedágio tende a ser absorvido sem necessariamente reverter a tendência de queda do frete médio, embora pressione margens em rotas mais curtas e com menos alternativas rodoviárias.
Efeito no caixa: como embarcadores e transportadoras devem reagir
Para o caixa das empresas, o movimento de julho abre uma janela tática. O frete mais baixo, puxado pela queda do diesel, combinado com reajuste de pedágios abaixo da inflação e revisão metodológica do piso ainda em curso, cria um período de alívio relativo no custo logístico — mas com risco regulatório crescente para quem paga abaixo da tabela.
Algumas estratégias práticas para o curto prazo:
- Reprecificar contratos indexados ao diesel: revisar fórmulas de reajuste, fortalecendo cláusulas de gatilho alinhadas à Lei nº 15.485/2026 para evitar disputas em períodos de volatilidade.
- Consolidar ganhos de frete em rotas-chave: usar o recuo de 2,7% como referência mínima em renegociações, principalmente em corredores com forte concorrência de transportadores.
- Aprofundar controle de CIOT: garantir que cada operação tenha CIOT correto, com valores aderentes ao piso, reduzindo risco de autuações e glosas futuras.
- Simular o impacto da nova metodologia da ANTT: usar dados internos de custo para antecipar como diferentes faixas de coeficientes podem afetar fretes por tipo de carga e distância.
Para transportadoras com frota própria, o recuo do diesel ajuda a recompor margens comprimidas no ciclo anterior, marcado por alta de combustível e frete nem sempre na mesma proporção. Já para embarcadores, a queda é uma oportunidade para ajustar contratos de forma mais estruturada — conectando tabela de frete, performance operacional (lead time, índice de avarias) e indicadores financeiros.
Logística portuária e investimentos: pano de fundo da nova rodada
No horizonte de médio prazo, a redução de frete rodoviário em julho acontece em paralelo a movimentos relevantes na logística portuária. A Transpetro anunciou planos de expansão de serviços com operações ship to ship a partir de 2027, ampliando a capacidade de transferir cargas líquidas entre navios e reduzindo gargalos em terminais dedicados.[11]
Ao mesmo tempo, o Porto de São Sebastião e outros terminais vêm anunciando redução de tarifas para atrair novas cargas, numa disputa direta com portos mais consolidados, como Santos e Paranaguá, por fluxos de granel e carga geral.[14] Essa combinação — frete rodoviário levemente menor, tarifas portuárias ajustadas e novos investimentos em infraestrutura — tende a redesenhar rotas de longo prazo, especialmente para players do agro e da indústria pesada.
Com Conab projetando volumes robustos de grãos e a CNT apontando que mais de 60% da matriz de transporte de cargas no Brasil segue rodoviária, qualquer melhora marginal na eficiência (menor frete, menos pedágio, mais capacidade portuária) tem impacto macro direto sobre competitividade externa e inflação interna de alimentos e bens industriais.
Fontes: Transporte Moderno, Sintropar, Tecnologistica, Exame, ANTT, GR Contábil, Revista Cultivar, Times Brasil, Jornal Portuário, além de dados complementares da Conab, CNT e IBGE.
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